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Um espelho às vezes turvo


Quem canta seus males espanta!!!

A gente vai vivendo um dia depois do outro, sem se dar conta dos propósitos que existem por trás das casualidades. Não podemos negar que há um propósito. Ninguém cresce e se desenvolve quando tudo vai muito bem. Os conflitos nos fazem abrir mais olhos em “semi-sono” [termo emprestado de João Guimarães Rosa] e refletir em como sair da pior enrascada dos últimos tempos…

Só estou tentando dizer, caros, que diferente do que ocorre com a minha cadelinha, minha alegria precisa de muito mais de que um petisco ou de um agrado no cocoruto, gente que sou… Conviver com semelhantes - nem tão semelhantes assim - nos expõe a situações muito complicadas… Temos que perdoar e deixar passar o que há de engano para sermos completos, ou pelo menos para tentarmos sê-lo, ainda que em silêncio.

Já a minha prima fala pelos cotovelos… A completude vem com a enxurrada das palavras. Ela sente que os sentimentos sufocam e precisa colocar partes de sentimento pra fora. Algumas outras criaturas escutam, cantam, reproduzem e enviam músicas. “Ah! Essas porta-vozes!” Elas são ótimas, porque não nos conhecem por dentro, mas nos invadem de maneira maciça e genuína. Vestem nosso espírito mas não nos comprometem, já que nem fomos nós quem dissemos aquilo tudo…

-Eu? Eu nunca disse isso para você!!! Cê tá doida? - ou senão - Nunca quis dizer nada disso. É só uma canção…

E há canções que dizem pluralidades multifacetadas, como são os nossos sentimentos. Sim, porque nossos sentimentos são cubisticamente recortados e variam com nosso estado de espírito: Se estou carente, sentimentos são assim… Se você fez o que eu queria, sentimentos são assado… O que vale são os eus nos meus momentos, egocentricamente…

Enquanto isso,vão e vem as reflexões e uma vida é gerada dentro de mim. Não dá pra ser egoísta agora.
As músicas que soam por aqui são as de caixas de música, entremeadas à expectativa de conhecer o rosto da minha filha. Esse som, aos meus ouvidos, é único e mágico. Minha filha é fruto de um amor intenso, mesmo que estranho porque diferente de todo o convencional, e vem Clara por causa disso.

Tenho uma família com cachorro. Tem alguma canção que fale sobre isso?



Escrito por Fabiane às 11h27
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Soneto da Fidelidade, do Poetinha



Escrito por Fabiane às 21h17
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O Estatuto do Homem - Thiago de Mello



Escrito por Fabiane às 21h10
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Esmolas Afetivas

Martha Medeiros

 É dureza levar um fora de quem a gente adora. Parece o fim do mundo, parece que nada pior pode nos acontecer. Mas pode. Pode o querido (vale para as queridas que se mandam, também) fazer o tipo bom moço e encher você de palavras carinhosas depois do pé-na-bunda.

Você vai até a farmácia e acaba com o estoque de lenços de papel. O atendente finge não reparar no seu nariz vermelho e nos seus olhos inchados. Aí, você volta para casa, liga o computador, abre sua caixa postal e está lá o nome do querido: mensagem para você. Seu coração dispara. Agarra o mouse com força, clica e lê as palavras mais lindas da língua portuguesa. Você foi muito importante pra mim. Jamais vou te esquecer. Foram os melhores dias da minha vida. Não mereço alguém tão perfeita. Seja feliz. Um beijo do sempre seu, Mané.

É um mané graduado, com ph.D em tortura. Deve ter feito um estágio no Doi-Code. Caramba, se ele acha você tão importante, tão perfeita, tão idolatrável, que diabos está fazendo com outra namorada? Por que não some do mapa de uma vez? Por que não faz a gentileza de deixar você esquecê-lo?

Os dias passam e o cara não escreve mais. Você retoma sua vida, lentamente. Ainda pensa muito nele, mas começa a perceber outras pessoas a sua volta e resolve abrir a guarda para a entrada de um novo amor. Aí, outro e-mail do Mané pousa na sua tela. Por que você anda sumida? Sinto muita saudade. Você é minha melhor amiga, sinto muito carinho por você.

Merece ou não merece um tijolo no meio da testa? Que papo é este de melhor amiga? Quanto ao carinho dele, você embrulha e envia para a Venezuela, alguém lá pode estar precisando. Se ele não pode dizer as coisas que você quer ouvir, que não diga nada. Tudo o que ele consegue com essa lengalenga é fazê-la passar outra temporada na farmácia.

Não estou recomendando grossura. É muito bom saber que a gente foi importante para alguém depois que o romance foi finalizado. Mas cautela aí no politicamente correto. Pessoas apaixonadas querem declarações apaixonadas. A transição de namorada para amiga só é rápida e indolor quando não há mais paixão. Cabe ao que saiu de cena ter sensibilidade para deixar o outro sofrer em paz, sem alimentar esperanças. Mais tarde, ânimos serenados, reconstrói-se a relação em outras bases, se for o caso. Atacar de melhor amigo sabendo que a garota está abalada pode parecer uma atitude bacana, mas é apenas sadismo.



Escrito por Fabiane às 21h08
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Uma flor selvagem

Lya Luft



O amor é uma escultura que se faz sozinha.
É uma flor inesperada sem estação do ano para surgir nem para morrer. Vai sendo esboçada assim ao léo: aqui a sobrancelha se arqueia, ali desce a curva do pescoço, a mão toca a ponta de um pé, no meio estende-se a floresta das mil seduções.
Imponderável como a obra de arte, o amor nem se define nem se enquadra: é cada vez outro, e novo, embora tão velho.
Intemporal. Planta selvagem, precisa de ar para desabrochar mas também se move nos vãos mais escuros, em ambientes sufocantes onde rebrilham os olhos malignos da traição ou da indiferença, e a culpa o pode matar.
O convívio é o exercito do amor na corda bamba. Os corpos se acomodam, as almas se espreitam, até se complementam. Mas pode-se cair no tédio – sem rede –, e bocejar olhando pela janela.
Inventamos receitas para que o amor melhore, perdure, se incendeie e renove... nem murche nem morra. Nenhuma funciona: ele foge de qualquer sensatez, como o perfume das maçãs escapa num cesto de vime tampado.
Se fôssemos sensatos haveríamos de procurar nem amar, amar pouco, amar menos, amar com hora marcada e limites. Mas o amor, que nunca tem juízo, nos prega peças quando e onde menos esperamos.
Nunca nos sentimos tão inteiros como nesses primeiros tempos em que estamos fragmentados: tirados de nós mesmos e esvaziados de tudo o mais, plenos só do outro em nós.
Nos sentimos melhores, mais bonitos, andamos com mais elegância, amamos mais os amigos, todo mundo foi perdoados, nosso coração é um barco para o qual até naufragar seria glorioso (ah, que naufrágios...).
Mais que isso, nesse castelo – como em qualquer castelo – não pode haver dois reis. Quem então cederá seu lugar, quem será sábio, quem se fará gueixa submissa ou servo feliz, para que o outro tome o lugar e se entronize e... reine?
A palavra “liberdade” teria de ser mais presente, porém é mais convidada a discretamente afastar-se e permitir que em seu lugar assuma o comando alguma subalterna: tolerância, resignação, doação, adaptação.
Rondando o fosso do castelo, a vilã de todas a culpa.
Quem deixou sobre minha mesa o bilhete dizendo “se você ama alguém, deixe-o livre” sabia das coisas, portanto sabia também o desafio que me lançava. No mundo das palavras há tantos artifícios quantas são as nossas contradições.
Por isso, conviver é tramar, trançar, largar, pegar, perder. E nunca definitivamente entender o que – se fossemos um pouco sábios – deveríamos fazer.
Farsa, tragédia grega, outras soneto perfeito: o amor, com as palavras, se disfarça em doces armadilhas ou lâminas mortais.



Escrito por Fabiane às 21h16
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Escrito por Fabiane às 21h21
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Escrito por Fabiane às 21h11
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Paralamas disseram:

A crueldade de que se é capaz
Deixar pra trás os corações partidos
Contra as armas do ciúme tão mortais
A submissão às vezes é um abrigo

Saber amar
É saber deixar alguém te amar

Há quem não veja a onda onde ela está
E nada contra o rio
Todas as formas de se controlar alguém
Só trazem um amor vazio

Saber amar
É saber deixar alguém te amar

O amor te escapa entre os dedos
E o tempo escorre pelas mãos
O sol já vai se pôr no mar


Escrito por Fabiane às 21h09
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Questionamentos por uma face de Pessoa

Álvaro de Campos
 
Mas Eu
 
   Mas eu, em cuja alma se refletem  
   As forças todas do universo, 
   Em cuja reflexão emotiva e sacudida 
   Minuto a minuto, emoção a emoção, 
   Coisas antagônicas e absurdas se sucedem — 
   Eu o foco inútil de todas as realidades, 
   Eu o fantasma nascido de todas as sensações, 
   Eu o abstrato, eu o projetado no écran, 
   Eu a mulher legítima e triste do Conjunto 
   Eu sofro ser eu através disto tudo como ter sede sem ser de água.


Escrito por Fabiane às 14h48
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Dance, Monkeys de Ernest Cline



Escrito por Fabiane às 01h33
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CARPE DIEM para releleitura atual...



Escrito por Fabiane às 00h16
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Guimarães, com licença de Crystian Borges



Escrito por Fabiane às 04h13
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Roda Viva

Roda-viva

                            Chico Buarque

 

Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu
A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mais eis que chega a roda-viva
E carrega o destino pra lá
Roda mundo, roda-gigante
Roda-moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração
A gente vai contra a corrente
Até não poder resistir
No volta do barco é que sente
O quanto deixou de cumprir
Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a roseira pra lá
Roda mundo, roda-gigante
Roda-moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração
A roda da saia, a mulata
Não quer mais rodar, não senhor
Não posso fazer serenata
A roda de samba acabou
A gente toma a iniciativa
Viola na rua, a cantar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a viola pra lá
Roda mundo, roda-gigante
Roda-moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração
O samba, a viola, a roseira
Um dia a fogueira queimou
Foi tudo ilusão passageira
Que a brisa primeira levou
No peito a saudade cativa
Faz força pro tempo parar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a saudade pra lá
Roda mundo, roda-gigante
Roda-moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração


Escrito por Fabiane às 04h11
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Resíduo de Drummond, por Autran



Escrito por Fabiane às 04h09
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UM HOMEM DE RESPEITO

Ano de 2006... Lá por meados do mês de outubro, a rotina do colégio se repetia na festividade de homenagem aos mestres da educação. Mês da padroeira, mês da criançada. Era tempo de atender aos pedidos que aguardavam desde não sei quando para serem atendidos. Pela TV, um cidadão de fé que passava de joelhos pela passarela de acesso à paróquia de Nossa Senhora. Pela jornada da vida, no caos da 25 de março ou dos Shoppings, uma criança de olhos fixos nas vitrines permanecia enfeitiçada com as luzes pisca-piscas dos brinquedos recém-lançados no mercado ou com o ursão felpudo, órfão, que aguardava empoeirado um companheiro para envolvê-lo num regaço. Podia ser também uma caixa de giz de cera, uma boneca de milho e pano, costurada por alguma vovó ou um carrinho de madeira, feito a serrote, suor e prego. Mas na escola, não se esquecia: Outubro é também mês de professor...

 

Sentada na poltrona confortável do teatro e assistindo ao Beatles Cover, senti a mesma satisfação da época das comemorações físicas. Vi-me grande e desajeitada, de chiquinhas que minha mãe insistia em repuxar. Tenho uma foto em chaveiro feita pelo Seu Zaga... Lembro-me do entusiasmo do som do piano dedilhado pela Dona Cristina.

 

Mas hoje estou aqui para tratar de lembranças que guardo de uma outra pessoa. Por alguns instantes, naquele evento de dia dos professores, não ouvi som qualquer. Meus olhos tinham parado num par de sapatos sem meia. Sorri comigo mesma e aprendi, mais uma vez, com a humildade...  Reluzia uma carequinha bem simpática. Suas feições eram quase sempre sisudas e um sorriso, percebo hoje, escapava danadinho e sem querer na enunciação de um bom-dia, estendendo a mão cordial. Hoje, bochechas grisalhas. Nenhum adolescente compreenderia o sentido de um senhor bem vestido, embalado em terno de cor sóbria e sapatos sem meia. Só a vida pode ensinar o valor dos artelhos felizes e livres dentro do sapato bom, sem, contudo, deixar de ser simples.

 

Os dedos da mão acompanhavam, compassados, o ritmo da canção, viajando pelas notas musicais que ele conhece tão intimamente. Não era aquele ali o empreendedor Paulo Meinberg. Aquele era o homem Paulo. Não parecia o mesmo Seu Paulo de quem eu sempre escutara falar. O Seu Paulo da minha infância era marrudo, casmurro, sério. Era definitivamente a personificação da sobriedade. Talvez por isso meus olhos tenham parado nos tornozelos traquilos e nus... Parecia-me cômico: sapato sem meia...

 

Mas afinal... Para quem aquele homem vestiria a meia senão para si? De certo não sentia frio... Hoje, eu mulher, posso imaginar quantas vezes a boa esposa não deva ter implicado:

 

            - Paulo! Sem meia? Vestir terno e sapatos sem meia? – ainda mais esposa elegante feito a dele...

 

Imagino que, enfiado no silêncio de quem sabe o que faz, preteriu as implicações e opiniões alheias de qualquer um que flagrasse aquele pecado do mundo da moda e foi ser feliz, ser ele próprio: Um professor, o respeito pelo próximo, sua comunidade escolar, o destino de muitos pais e filhos pelo exemplo. Para casos de ex-alunos, bons filhos que à casa tornam,  refiro-me também à chance de  poder reatar aquilo que Machado de Assis revelaria como “atar as duas pontas da vida”. Por muitos anos ensinou-se a aprender. Etapa concluída, ensina-se, hoje, a ensinar.

 

Esse homem não é senão isso: um eterno ensinar, ainda que calado. Como ser simples, como perseverar, como construir, como dignificar, como preservar, como saber, como ter sem se tornar escravo do que se tem. Mediante tantos valores materialistas do Capitalismo Selvagem e de Eu-Etiqueta, e aqui  cabe o célebre poema de Drummond, este homem contradiz a idéia de ser “coisa coisamente”. Inexistem, nesse homem, os versos de Drummond:

 

“Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,

Minha gravata e cinto e escova e pente,

Meu copo, minha xícara,

Minha toalha de banho e sabonete,

Meu isso, meu aquilo.”

 

Assegura-se em Seu Paulo, o que eu conheço, o homem, digno, talvez defectível, por isso admirável.

 

Enquanto isso, descansam, bonachões, os dedos dentro do sapato confortável, sem cadarço nem verniz, porque qualquer outro brilho seria parco e invejoso, ainda que aos pés desse homem-exemplo.

 

 

 

            21-10-2006

 



Escrito por Fabiane às 03h29
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